Como pensar o mundo e outras questões relacionadas ao nosso tempo? Refrações é um experimento que promove o encontro de questionamentos e interpretações com base na visão de grandes autores em curtos episódios. Nesta edição: Simulacros e Simulação (S&S), de Jean Baudrillard (edição consultada: Trad. Maria João da Costa Pereira. Lisboa: Relógio D’água, 1991).

“Quando o real já não é o que era, a nostalgia assume todo o seu sentido. Sobrevalorização dos mitos de origem e dos signos de realidade. De verdade, de objetividade e de autenticidade de segundo plano. Escalado do verdadeiro, do vivido. Ressurreição do figurativo onde o objeto e a substância desapareceram. Produção desenfreada de real e de referencial paralela e superior ao desenfreamento da produção material. Assim surge a simulação na fase que nos interessa: uma estratégia de real, de neo-real e de hiper-real. Que faz por todo o lado a dobragem de uma estratégia de dissuasão.” (S&S, p. 14).

Como descrever o real? O que seria a realidade? Segundo o dicionário, o significado de realidade é a qualidade do que é real. Existência de fato. O que existe realmente. Um conjunto de todas as coisas reais. Mas como dizer que algo é apenas o que é se partirmos do princípio de cada um de nós tem uma interpretação sobre tudo? Damos valores diferentes para as mesmas coisas, e temos diferentes pontos de vista sobre um mesmo assunto, levando em consideração que tivemos durante toda a vida diferentes perspectivas sobre o que é a vida e como devemos nos comportar diante dela. Poderia ser o que entendemos como realidade hoje, em uma visão hipotética, apenas um plano no qual nos permitimos misturar nossas próprias ficções com as de outras pessoas? Uma dimensão na qual se fundem diferentes maneiras de observar o que nos cerca e que faz parte de nossas experiências, determinando assim um ponto em comum? Não estaria o que nós chamamos de realidade, sofrendo distorções que podem estar criando um novo entendimento do que é real como idealização?

Segundo Baudrillard, “O que toda uma sociedade procura ao continuar a produzir e reproduzir, é ressuscitar o real que lhe escapa. É por isso que está produção material é hoje, ela própria, hiper-real. Ela conserva todas as características do discurso da produção tradicional, mas não é mais que a sua refracção desmultiplicada. Assim, em toda parte o hiper-realismo da simulação traduz-se pela alucinante semelhança do real consigo próprio.”

Você certamente já prestou atenção diversas vezes em fotos de belas mulheres estampadas em propagandas, artigos de revista e portais de Internet. E certamente foram muitas as vezes também que você já ouviu alguma história de deslizes cometidos em retoques e tratamentos de imagens dessas mesmas mulheres, que chegaram ao ponto de distorcer totalmente o que entendemos como o normal na anatomia ou estética humana. Em alguns momentos, presenciamos até mesmo erros gritantes, que chegam a sumir com partes do corpo. Tudo isso, baseado em uma distorção. Um conceito de hiper-realidade . Convencionou-se que a beleza feminina deve atingir um ideal que, se pararmos para pensar, é absurdo. Um ideal de beleza impossível de ser atingido, simplesmente pelo fato de ser uma beleza inexistente, a não ser no imaginário de algumas pessoas.

“As pessoas já não se olham, mas existem institutos para isso. Já não se tocam, mas existe a contactoterapia. Já não andam, mas fazem jogging. Por toda a parte se reciclam as faculdades perdidas, o corpo perdido, a sociabilidade perdida, ou o gosto perdido pela comida. Reinventa-se a penúria, a ascese, a naturalidade selvagem desaparecida.” (S&S, p. 22)

Estaríamos cada vez mais vivendo fenômenos do que é hiper-real? Esse exemplo de simulação de beleza, seria apenas uma prova do que vivemos? A diferença de uma simulação para o simulacro de fato, é que no estágio de simulação, ainda conseguimos perceber que estamos, de alguma forma, sendo enganados, ou de que estamos vivendo de alguma forma, algo que não é supostamente real. Já no simulacro, perdemos por completo essa noção. Adotamos como suposta verdade um conceito que já não temos mais o discernimento de ser uma distorção ou simulação.

O que será que não estamos mais enxergando? O que será que não estamos mais percebendo?

“Em vez de fazer comunicar, esgota-se na encenação da comunicação. Em vez de produzir sentido, esgota-se na encenação do sentido. Gigantesco processo de simulação que é bem nosso conhecido. A entreva não diretiva, a palavra, os telefones de auditores, a participação diversificada, a chantagem a palavra. A informação é cada vez mais invadida por essa especie de conteúdo fantasma, de transplantação homeopática, de sonho acordado da comunicação. Disposição circular onde se encena o desejo da sala, antiteatro da comunicação que, como se sabe, nunca é mais que a reciclagem em negativo da instituição tradicional, o circuito integrado do negativo. Imensas energias são gastas para manter esse simulacro, para evitar a dissimulação brutal que nos confrontaria com a evidente realidade de uma perda radical do sentido” (S&S, p. 105)

Até onde vai a hiper-realidade? Se ela está presente em nossas vidas, em quais níveis ela está atuando? Nos refrigerantes com sabores artificiais que simulam frutas que muitas vezes nunca provamos? Na pornografia que transforma o sexo em mais do que sexo propriamente dito? Nos jardins impecáveis que representam supostamente uma natureza perfeita? Nos filmes e séries que criam mundos de fantasia que só agradam a audiência mais exigente, quando conseguem dar mais sentido as suas obras do que aquilo que entendemos como a realidade de nossas próprias vidas?

Como medir a nossa percepção de realidade? Estaríamos imersos em um processo de comunicação hiper-real quando estamos conectados nas redes sociais? Perdemos o rumo ao procurarmos mostrar nelas uma vida supostamente perfeita, que segue um roteiro de cinema para parecermos aos nossos amigos e familiares aquilo que não somos de fato, personagens de nós mesmos? Será que perdemos, por exemplo, a capacidade de vivenciar a experiência de ver com toda a atenção as obras de um museu, ou de conseguir saborear uma boa comida, em detrimento a necessidade de mostrar que somos felizes através de fotos digitais compartilhadas que clamam por atenção? Quanto tempo estamos passando imersos em supostas realidades virtuais, vivendo histórias prontas, ou com no máximo algumas variáveis dentro de um roteiro mais flexível. Em oposição a isso, vamos considerar que existe na válvula de escape das comunicações virtuais e dos ambientes digitais, simulações e interações de tantos tipo, como por exemplo em jogos e simuladores, que elas podem despertar muitas vezes sentimentos tão fortes que nos parecem tocar o fundo da alma e despertar as emoções mais humanas possíveis. Mesmo que seja em uma simulação ou simulacro, vivenciar essas experiências com tamanha intensidade então, não tornaria o que sentimos, real?

“Não é quando se retira tudo que não resta nada, mas quando as coisas se revertem sem cessar e a própria adição já não faz sentido. O nascimento é residual se não for retomado simbolicamente pela iniciação. A morte é residual se não for resolvida no luto. O valor é residual se não for reabsorvido e volatilizado no ciclo das trocas. A sexualidade é residual quando se torna produção de relações sexuais. O próprio social é residual quando se torna produção de relações sociais. Todo o real é residual, e tudo o que é residual está destinado a repetir-se indefinidamente no espectral.” (S&S, p. 179)