O mundo codificado

Refrações um experimento que promove o encontro de questionamentos e interpretações, com base na visão de pensadores em obras pontuais, traduzidas em curtos episódios. Como pensar o mundo e outras questões relacionadas ao nosso tempo? Neste episódio: Vilém Flusser – O Mundo Codificado. Organizado por Rafael Cardoso e traduzido por Raquel Abi-Sâmara. São Paulo: Cosac Naify, 2007.

“A comunicação humana é um artifício, cuja intenção é nos fazer esquecer a brutal falta de sentido de uma vida condenada a morte. Sob a perspectiva da natureza, o homem é um animal solitário, que sabe que vai morrer, e que na hora de sua morte está sozinho. E potencialmente, cada hora é a hora da morte. Sem dúvida, não é possível viver com esse conhecimento da solidão fundamental e sem sentido. A comunicação humana tece o véu do mundo codificado. O véu da arte, da ciência, da filosofia e da religião ao redor de nós. E o tece com pontos cada vez mais apertados. Para que esqueçamos nossa própria solidão, nossa morte, e também a morte daqueles que amamos. O homem comunica-se com os outros. É um animal político. Não pelo fato de ser um animal social. Mas sim, porque é um animal solitário incapaz de viver na solidão.” (p. 91)

imagens

“Os objetos deixaram de ser alcançáveis e, por isso, no sentido estrito da palavra, não são mais “objetivos”, mas apenas “fenomênicos”; eles agora somente aparecem, passam a ser visíveis apenas. Por isso é desconfortável esse ponto de vista, porque nos faz duvidar da objetividade desse mundo que apenas aparece e não mais se manifesta. No entanto, ele oferece uma vantagem: agora que não esbarramos mais nas coisas, podemos observá-las, vê-las em seu contexto; podemos deduzir fatos. Agora que não esbarramos mais numa árvore após a outra, podemos ver a floresta.”  (p. 163)

Como vemos o mundo? A todo momentos estamos prestando atenção a superfícies eletrônicas. Utilizamos dispositivos que tem sempre na tela, alguma coisa a nos mostrar. Dividimos nossa atenção entre notificações, mensagens de texto, voz e imagens. Seja no smartphone, no tablet, na televisão, no monitor. A superfície eletrônica está lá, sempre pronta para nos abrir as portas para um mundo repleto de informações, exatamente da maneira que queremos, ou achamos que queremos enxergar. Mas quais as limitações que essas superfícies nos implicam ao acessar esse mundo codificado?

“O computador é uma calculadora provida de memória. Nessa memória podem ser inseridos os cálculos, caso tenham sido passados do código numérico para o código digital, ou seja, caso esses cálculos tenham sido buscados no código alfanumérico. Agora, senta-se diante de um teclado, busca-se na memória a partir de cada toque, um elemento pontual após o outro, a fim de integrar uma imagem na tela, de computá-la. Essa busca feita passo a passo pode ser automatizada e acontecer muito rapidamente. As imagens aparecerão na tela numa velocidade estonteante, uma após a outra. Pode-se observar essa sequência de imagens como se a imaginação tivesse autonomizado, como se tivesse se deslocado de dentro, digamos, da cabeça, para fora, para o computador. Como se pudéssemos ver nossos próprios sonhos do lado de fora. (…) Desse modo, as imagens fixadas podem ser alteradas, pode-se iniciar uma espécie de diálogo entre a própria imaginação e aquela que foi introduzida no computador. (p. 173)

glitchO que vivemos e sentimos quando nos sentamos diante do mar? Quais os sentimentos que essa cena nos provoca? Do que nos lembramos, no que pensamos e como registramos essa mistura de sensações? Como o ato de registrar esse momento em uma fotografia, codifica esse momento? E quando a fotografia é digital, como se dá a interpretação de digitos e números em uma imagem que pode ser imediatamente tratada e corrigida dentro de padrões programados? Para Flusser, “Primeiramente recuamos do mundo para poder imaginá-lo. Então nos afastamos da imaginação para poder descrevê-lo. Depois nos afastamos da crítica escrita e linear para poder analisá-lo. E, finalmente, projetamos imagens sintetizadas a partir da análise, graças a uma nova imaginação.” Como refletimos a nossa imaginação entre o suposto real e o virtual? Existe uma diferença? E mais do que isso, se ela existe, ela importa?

“As imagens da imaginação até hoje são bidimensionais porque foram abstraídas do mundo quadridimensional, e as imagens da nova imaginação são bidimensionais porque foram projetadas por cálculos adimensionais (nulldimensional). O primeiro tipo de imagens fez mediação entre o homem e seu mundo. O segundo tipo, entre cálculos e sua possível aplicação no entorno. O primeiro significa o mundo, o segundo, cálculos. O primeiro é cópia de fatos, de circunstâncias. O segundo de cálculos. Os vetores significativos das duas imaginações indicam direções opostas, e as imagens do primeiro tipo devem significar coisas diversas do segundo” (p. 173)

imaginacaoEstaríamos vivendo de fato em um mundo codificado? Será que podemos resumir nossa existência no mundo digital em que estamos cada vez mais presentes, entre programadores e programados? Entre pessoas que através de uma linguagem, criam uma nova codificação, mais simples. E em cima dessa codificação, supostos usuários fazem escolhas dentro de combinações que ao mesmo tempo que facilitam caminhos, limitam opções? Em contraponto, não seria essa uma visão amedrontada de como mudamos nossa maneira de nos comunicar e enxergar o mundo? Como entender o código, a codificação e o que existe além dessa interpretação? Como lidar com a linguagem além da linguagem e qual é o papel das diferentes dimensões entre os nossos olhares e sensações?

Não temos escolha: devemos ousar. Independente de querermos ou não, a nova imaginação promete-nos vivências de representações, sentimentos, conceitos, valores e decisões – coisas que até agora só pudemos sonhar, no melhor dos casos; essa ousadia promete colocar em cena as capacidades que até agora apenas dormitavam em nós. (p. 177)

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