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O que é virtual?

Como pensar o mundo e outras questões relacionadas ao nosso tempo? Refrações é um experimento que promove o encontro de questionamentos e interpretações com base na visão de grandes autores em curtos episódios. Nesta edição:  http://admin199.myjino.ru/tech/kurs-bitcoin-novosti.html курс bitcoin новости O que é Virtual? – Pierre Levy. Traduzido por Paulo Neves. São Paulo: Editora 34, 2011.

transhumanisme_test_by_camynow“Seres humanos, pessoas daqui e de toda parte, vocês que são arrastados no grande movimento da desterritorialização, que reunidos e dispersos, vivem capturados, esquartejados nesse imenso acontecimento do mundo que não cessa de voltar a si e de recriar-se, vocês que são jogados vivos no virtual, que são pegos nesse enorme salto que nossa espécie efetua em direção a nascente do fluxo do ser, no núcleo mesmo desse estranho turbilhão. Vocês estão em sua casa. Bem-vindos à nova morada do gênero humano. Bem-vindos aos caminhos do virtual!” (LEVY, p. 103)

“O virtual não se opõe ao real, mas sim ao atual. Contrariamente ao possível, estático e já constituído, o virtual é como o complexo problemático, o nó de tendências ou de forças que acompanha uma situação, um acontecimento, um objeto ou uma entidade qualquer, e que chama um processo de resolução: a atualização. Esse complexo problemático pertence à entidade considerada e constitui inclusive uma de suas dimensões maiores. O problema da semente por exemplo, é fazer brotar uma árvore.” (LEVY, p. 5)

Onde você verdadeiramente está? É aceitável pensar que suas ideias se multiplicam em diversos lugares enquanto seu corpo está preso em um único local? Qual a real importância e a diferença entre os diversos níveis de experiência que podemos ter? Nos diversos processos evolutivos que a humanidade passou até então, o mais recente é o que lida com a questão da virtualização com mais força, graças a novas interpretações pela tecnologia. A virtualização como mutação em curso não é boa, nem má. Mas sim um movimento do “devir outro” do humano. É preciso aprender, pensar e compreender sua amplitude, e não apenas condená-la as cegas.

0b5a76d68aa6730fb66ff5a3f2baa619“A projeção da imagem do corpo é geralmente associada a noção de telepresença. Mas a telepresença é sempre mais que a simples projeção da imagem. O telefone, por exemplo, já funciona como um dispositivo de telepresença. Uma vez que não leva apenas uma imagem ou uma representação da voz: transporta a própria voz. O telefone separa a voz (ou corpo sonoro) do corpo tangível e a transmite à distância. Meu corpo tangível está aqui, meu corpo sonoro, desdobrado, está aqui e lá. Os sistemas de realidade virtual transmitem mais que imagens: uma quase presença.” (LEVY, p. 13)

Lemos ou escutamos o texto? O que ocorre? Paradoxalmente, será que ler e escutar, nos faz começar a negligenciar, desler ou desligar o texto? Ao mesmo tempo que o rasgamos pela leitura ou pela escuta, o amarrotamos? Relacionando uma a outra as passagens que se correspondem? Ler um texto seria reencontrar os gestos têxteis que lhe deram seu nome? Um pensamento se atualiza num texto, e ao realizarmos uma atualização nesse texto, passamos a virtualização do hipertexto. Assim, criamos um campo textual disponível, móvel, reconfigurável, e o conectamos com outros corpos hipertextuais. Em quantos links você clicou hoje? Navegando pela Internet com conexões infinitas entre textos, sons, vídeos e imagens. Por quantos significados cada conceito deve ter passado na rede? Por quantas diferentes leituras e construções uma palavra e suas ligações diretas e indiretas já fizeram parte de diferentes perspectivas?

transhuman-peacock-dancer“O corpo sai de si mesmo, adquire novas velocidades, conquista novos espaços. Verte-se no exterior e reverte a exterioridade técnica ou a alteridade biológica em subjetividade concreta. Ao se virtualizar, o corpo se multiplica. Criamos para nós mesmos organismos virtuais que enriquecem nosso universo sensível sem nos impor a dor. A virtualização do corpo não é uma desencarnação, mas uma reinvenção, uma reencarnação, uma multiplicação. Contudo, o limite jamais está definitivamente traçado entre a heterogênese e a alienação, a atualização e a reificação mercantil, a virtualização e a amputação. Esse limite indeciso deve ser constantemente considerado, avaliado com o esforço renovado, tanto pelas pessoas no que diz respeito a sua vida pessoal, quanto pelas sociedades no âmbito das leis.” (LEVY, p. 17)

Em quantos lugares podemos estar ao mesmo tempo? E como? Se o que realmente nos importa são as sensações e experiências, podemos artificialmente trilhar caminhos virtualmente mais interessantes do que a suposta realidade? Seria a visão de que estamos nos distanciando cada vez mais uns dos outros, uma ideia negativa que ainda não se conseguiu largar por velhos paradigmas ou podemos realmente estar construindo algo ruim para cada um de nós? Qual o futuro de nossas relações com as novas tecnologias de virtualização e como lidar com a relação de nossas mentes, percorrendo tantos lugares e criando diferentes experiências em cada um deles? Você, agora mesmo. Você está no virtual, e faz parte dele. Ao ouvir esse podcast ou ler sua transcrição, sua mente construiu sua própria narrativa, a sua maneira, baseada em minhas palavras e suas próprias referências. Minha voz se faz presente em vários lugares com outras pessoas, em tempos diferentes ou simultaneamente. O possível, e o virtual. O real, e o atual acontecem aqui. E não cessará.

15156“O tempo humano não tem o modo de ser de um parâmetro ou de uma coisa. Ele não é justamente real, mas o de uma situação aberta. Nesse tempo assim concebido e vívido, a ação e o pensamento não consistem apenas em selecionar entre possíveis já determinados, mas em reelaborar constantemente uma configuração significante de objetivos e de coerções, em improvisar soluções, em reinterpretar deste modo uma atualidade passada que continua a nos comprometer. Por isso vivemos o tempo como problema. Em sua conexão viva, o passado herdado, rememorado, reinterpretado, o presente ativo e o futuro esperado, temido, ou simplesmente imaginado, são de ordem psíquica, existenciais. O tempo como extensão completa não existe a não ser virtualmente.” (LEVY, p. 46)

Deste episódio: Edição, roteiro e sound design por Rodolfo Quinafelex.

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Multiplicidade, rizoma e mil platôs

Como pensar o mundo e outras questões relacionadas ao nosso tempo? Refrações é um experimento que promove o encontro de questionamentos e interpretações com base na visão de grandes autores em curtos episódios. Nesta edição: найти высоту треугольника с вершинами в точках Mil Platôs, Capitalismo e Esquizofrenia – Gilles Deleuze e Félix Guattari. Traduzido por Aurélio Guerra Neto e Celia Pinto Costa. São Paulo: Editora 34, 2000.

rizoma-01“Um rizoma não começa nem conclui, ele se encontra sempre no meio, entre as coisas. A árvore é filiação, o rizoma é aliança, unicamente aliança. A árvore impõe o verbo “ser”, mas o rizoma tem como tecido a conjunção “e…:”. Há nesta conjunção força suficiente para sacudir e desenraizar o verbo ser. Entre as coisas não designa uma correlação localizável que vai de uma para outra reciprocamente, mas uma direção perpendicular, um movimento transversal que as carrega uma e outra, riacho sem início nem fim, que rói suas duas margens e adquire velocidade no meio”. (DELEUZE; GUATTARI, p. 04).

“O mundo perdeu seu pivô, o sujeito não pode nem mesmo mais fazer dicotomia, mas acede a uma mais alta unidade, de ambivalência ou de sobredeterminação, numa dimensão sempre suplementar àquela de seu objeto. O mundo tornou-se caos, mas o livro permanece sendo imagem do mundo. Estranha mistificação, esta do livro, que é tanto mais total quanto mais fragmentada. O livro como imagem do mundo é de toda maneira uma idéia insípida. Na verdade não basta dizer Viva o múltiplo. É preciso faze-lô, não acrescentando sempre uma dimensão superior, mas, ao contrário, da maneira simples, com força de sobriedade, no nível das dimensões de que se dispõe”. (DELEUZE; GUATTARI, p. 14)

Abra o seu navegador. Por qual página você começa na Internet e para onde você vai? Mudamos a maneira como construímos nossos caminhos, das formas mais diversas, e cada um consegue exercer o processo de aprendizado a sua maneira, completamente autônoma e particular. O rizoma é emblemático: falamos de multiplicidade. De diferenças que relacionam-se entre si. Sem distinção entre o indivíduo e a coletividade. O que os une ou separa é apenas um desejo social. E é este desejo que está sempre em movimento, sempre composto de diferentes elementos que dependem de cada situação. Sob essa perspectiva, não se trata do começo, nem do fim. Mas sim do meio.

rizoma-03“É somente quando o múltiplo é efetivamente tratado como substantivo, multiplicidade, que ele não tem mais nenhuma relação com o uno como sujeito ou como objeto, como realidade natural ou espiritual, como imagem e mundo. As multiplicidades são rizomáticas e denunciam as pseudomultiplicidades arborescentes. Inexistência de unidade ainda que fosse para abortar no objeto e para “voltar” no sujeito. Uma multiplicidade não tem nem sujeito nem objeto, mas somente determinações, grandezas, dimensões que não podem crescer sem que mude de natureza. As leis de combinação crescem então com a multiplicidade)”. (DELEUZE; GUATTARI, p. 15)

Nos deparamos com a diversidade e a pluralidade. Nos conectamos de um ponto qualquer com outro através de ligações de diferentes naturezas. Não falamos de níveis e valores hierárquicos do tipo “mais real” e “menos real”, mais verdadeiro e mais falso. Falamos é de uma ordem onde só há diferenças, mesmo nos seus valores. Aquilo que eu chamo hoje de “belo” não é o mesmo que chamei ontem com o mesmo nome. Falamos de um desejo que está sempre em movimento, composto de diferentes elementos, dependendo de cada situação.

rizoma-05“O que quer dizer amar alguém? É sempre apreendê-lo numa massa, extraí-lo de um grupo, mesmo restrito, do qual ele participa, mesmo que por sua família ou por outra coisa; e depois buscar suas próprias matilhas, as multiplicidades que ele encerra e que são talvez de uma natureza completamente diversa. Ligá-las às minhas. Núpcias celestes, multiplicidades de multiplicidades. Não existe amor que não seja um exercício de despersonalização sobre um corpo sem órgãos a ser formado; e é no ponto mais elevado desta despersonalização que alguém pode ser nomeado. Recebe seu nome ou seu prenome, adquire a discernibilidade mais intensa na apreensão instantânea dos múltiplos que lhe pertencem, e aos quais ele pertence”. (DELEUZE; GUATTARI, p. 47)

Vivemos uma fase de desconstrução de valores para tentarmos dialogar com diferenças que passamos por tanto tempo ignorando, ou seria essa de fato uma nova maneira de lidar com a vida? Nos baseando em um processo de vivência e aprendizado totalmente particular, inerente ao que cada um julga ser o melhor de acordo com seus interesses? É preciso considerar que cada conceito, é fruto de um entendimento. Será que mudamos como seres humanos? A mesma riqueza de oportunidades, caminhos e escolhas que fazem com que a vida tenha se tornado tão ampla, pode ao mesmo tempo trazer a agonia e a pressão de tantas possibilidades. Como trilhar tantos caminhos? Como entender tantos atalhos? E o que perseguir considerando apenas a jornada, e não a linha final?

rizoma-08“Para onde vai você? De onde você vem? Aonde quer chegar? Essas são questões inúteis. Partir ou repartir de zero, buscar um começo ou um fundamento, implicam uma falsa concepção da viagem e do movimento.” (DELEUZE; GUATTARI, p. 34)

 

 

 

 

 

Deste episódio: Edição, roteiro e sound design por Rodolfo Quinafelex. Revisão: Marcos Beccari.

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Humano, demasiado humano

Como pensar o mundo e outras questões relacionadas ao nosso tempo? Refrações é um experimento que promove o encontro de questionamentos e interpretações com base na visão de grandes autores em curtos episódios. Nesta edição:  где хорошее золото Humano, Demasiado Humano – Friedrich Nietzsche. Traduzido por Paulo César de Souza. São Paulo: Editora Schwarcz, 2000.

 “Tudo o que é essencial na evolução humana se realizou em tempos primitivos, antes desses quatro mil anos que conhecemos aproximadamente. Nestes o homem já não deve ter se alterado muito. O filósofo, porém, vê “instintos” no homem atual e supõe que estejam entre os fatos inalteráveis do homem, e que possam então fornecer uma chave para a compreensão do mundo em geral. Toda a teleologia se baseia no fato de se tratar o homem dos últimos quatro milênios como um ser eterno, para o qual se dirigem naturalmente todas as coisas do mundo, desde o seu início. Mas tudo veio a ser; não existem fatos eternos: assim como não existem verdades absolutas.” (NIETZSCHE, p. 10)

ref005-06“Aos poucos, não apenas o indivíduo, mas toda a humanidade se alçará a esta virilidade, quando enfim se habituar a uma maior estima dos conhecimentos sólidos e duráveis, e perder toda crença na inspiração e na comunicação milagrosa de verdades. – É certo que os adoradores das formas, com sua escala do belo e do sublime, terão boas razões para zombar inicialmente, tão logo a estima das verdades despretensiosas e o espírito científico comecem a predominar: mas apenas porque seus olhos não se abriram ainda para a atração da forma mais simples, ou porque os homens educados nesse espírito ainda não se acham plena e intimamente tomados por ele, de modo que continuam a imitar irrefletidamente as velhas formas.” (NIETZSCHE, p. 11)

O que é a verdade? Precisamos valorizar nossos instintos e não dar total prioridade para a nossa razão? Vivemos em um tempo no qual sentimos que os sentidos estão sendo ignorados por causa de valores construídos pela racionalidade? Que ao tentar nos proteger, criamos barreiras para vivermos uma vida que gostaríamos que fosse plena? O homem tende a inventar conceitos para estabelecer regras, e assim trilhar caminhos em busca do poder e dominação.

ref005-04“Seja como for, com a religião, a arte e a moral não tocamos a “essência do mundo em si”; estamos no domínio da representação, nenhuma “intuição” pode nos levar adiante. Com tranqüilidade deixaremos para a fisiologia e a história da evolução dos organismos e dos conceitos a questão de como pode a nossa imagem do mundo ser tão distinta da essência inferida do mundo.” (NIETZSCHE, p. 12)

O homem ao observar o mundo caótico, tenta consertar as coisas criando uma suposta realidade racional, dentro de uma fórmula que de fato não existe. Como se pudesse materializar um mundo belo e justo, falseado através do medo. O mesmo medo que o homem tem em aceitar o acaso. Se perde em meio a planos idealizados para tentar justificar possíveis fracassos e mazelas que contrariam as nossas expectativas. Para Nietzsche, “apenas homens muito ingênuos podem acreditar que a natureza humana pode ser transformada numa natureza puramente lógica. Mesmo o homem mais racional precisa, de tempo em tempo, novamente da natureza, isto é, de sua ilógica relação fundamental com todas as coisas.”

ref005-02“Pode-se prometer atos, mas não sentimentos; pois estes são involuntários. Quem promete a alguém amá-lo sempre, ou sempre odiá-lo ou ser-lhe sempre fiel, promete algo que não está em seu poder; mas ele pode prometer aqueles atos que normalmente são consequência do amor, do ódio, da fidelidade, mas também podem nascer de outros motivos: pois caminhos e motivos diversos conduzem a um ato. A promessa de sempre amar alguém significa, portanto: enquanto eu te amar, demonstrarei com atos o meu amor; se eu não mais te amar, continuarei praticando esses mesmos atos, ainda que por outros motivos: de modo que na cabeça de nossos semelhantes permanece a ilusão de que o amor é imutável e sempre o mesmo. – Portanto, prometemos a continuidade da aparência do amor quando, sem cegar a nós mesmos, juramos a alguém amor eterno.” (NIETZSCHE, p. 34)

Algo se perdeu na passagem da mitologia para a filosofia. O espírito precisa da harmonia entre a razão e a emoção. Entre a ordem e o caos. O equilíbrio e o excesso. É o apolíneo contra o dionisíaco. Não somos apenas serenidade e austeridade. O que nos move tem transe e paixão. Desse modo, podemos nos questionar: seria a razão pura, simplesmente falha? Fazendo com que o universo fique mais distante de nós? Regras de um jogo que jogamos sem nos dar conta, e que através dela, o homem não aceita a vida como ela se apresenta, e finge não existir o que está fora do nosso controle? Como aprender a caminhar nesse caos e lidar com a vida em sua total multiplicidade? Como um jogo de dados onde o resultado é imprevisível, e ainda sim conta com tantas repetições. A questão é: quem reconhece a repetição e a diferença, que estabelece esta ordem de reconhecimento? Eis o humano, demasiado humano.

ref005-05“Nosso tempo dá a impressão de um estado interino; as antigas concepções do mundo e as antigas culturas ainda existem parcialmente, as novas não são ainda seguras e habituais, e portanto não possuem coesão e coerência. É como se tudo se tornasse caótico, o antigo se perdesse, o novo nada valesse e ficasse cada vez mais frágil. Mas assim ocorre com o soldado que aprende a marchar: por algum tempo ele é mais inseguro e mais desajeitado do que antes, porque seus músculos são movidos ora pelo velho sistema ora pelo novo, e nenhum deles pode declarar vitória. Nós vacilamos, mas é preciso não se inquietar por causa disso, e não abandonar as novas aquisições. Além disso não podemos mais voltar ao antigo, já queimamos o barco; só nos resta ser corajosos, aconteça o que acontecer. – Apenas andemos, apenas saiamos do lugar!” (NIETZSCHE, p. 97)

Deste episódio: Edição, roteiro e sound design por Rodolfo Quinafelex. Revisão: Marcos Beccari.

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Existe Design?

Refrações é um experimento que promove o encontro de questionamentos e interpretações com base na visão de grandes autores em curtos episódios. Como pensar o mundo e outras questões relacionadas ao nosso tempo? Neste episódio: Existe Design? Indagações filosóficas em três vozes – Ivan Mizanzuk, Daniel B. Portugal e Marcos Beccari. Teresópolis: Editora 2AB, 2013.

“O design em nossa perspectiva anti-instrumental, é potência de enunciação sobre si mesmo, e por conseguinte, sobre todas as coisas que constituem nosso mundo. Mas, para liberar tal potência, é preciso reconhecer e conhecer todo um universo complexo e instigante que existe para além do design. Design é abertura, não fechamento. Ele não agrega apenas diversos tipos de conhecimento, cada qual supostamente homogêneo em si mesmo, mas provém antes do espanto que afeta cada campo de estudo, impedindo-o de ser homogêneo. O design nos motiva a descobrir, desejar, encontrar, expressar. Não há um método infalível para isso, apenas um longo (e muitas vezes ingrato) trajeto. Nós designers somos mais espectadores do que autores: em vez de resolver ou dar respostas, contemplamos e fazemos contemplar. Ao invés de errar e dar lições de moral, insistimos no erro para ver até que ponto ele está errado. Passamos o tempo a ordenar formas, a dispô-las de outro modo, a eliminar algumas delas, a fazer prosperar outras. Nada nos motiva mais do que o acaso.” (PORTUGAL; BECCARI, p. 125)

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“Só temos acesso ao mundo através de nossos sentidos, e a cada momento, nossos sentidos absorvem uma quantidade enorme de estímulos caóticos e mutáveis. Através de nossa memória, nossos interesses, nossa linguagem e nossa imaginação, organizamos esses estímulos em um todo que passamos a encarar como “a realidade”. Portanto, as coisas que existem nessa realidade, existem, em parte, porque foram inventadas por nós.” (PORTUGAL, p. 26)

Criação. Projeto. Arte. Como definir uma concepção tão ampla, que bebe de tantas fontes e se desdobra em tantos suportes de diferentes maneiras? Entre teorias e técnicas, o design sempre teve como essência o entendimento de diversos campos para encontrar fundamentos e assim se concretizar em diversos meios com o máximo de repertório. Seria essa discussão que se faz tão presente nos momentos em que estudamos o design uma definição possível, ou dada sua abrangência, defini-lo poderia ser considerado uma ação reducionista? E mais do que isso, seria o design o expoente da multiplicidade do nosso tempo?

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“A ausência de design é o que torna o trabalho ruim. Transformamos assim o design em um ente metafísico, tão nobre, misterioso e incompreensível quanto um ser divino. Notemos que, com isso, voltamos ao problema a respeito do que entendemos por design: afinal, esperamos preocupação social? Coerência? Bom uso de cores e formas? E o que significa tudo isso? Parece-me que é por isso que, às vezes, ao discutirmos sobre como o design “deve ser”, temos a sensação de estarmos discutindo sobre o “sexo dos anjos”. Recorremos novamente ao relativismo de nosso dia-a-dia, pois é uma alternativa mais fácil (em primeiro momento). Isso, contudo, não evita que o problema moral esteja ainda lá.” (MIZANZUK, p. 77)

Como pensar o design? O que existe artificialmente ao nosso redor e como percebemos a maneira com que interagimos com uma série de objetos do nosso cotidiano em tantos desdobramentos? O que nos faz de fato designers? Seriamos criadores de obstáculos para remover obstáculos, de maneira a pensar em como podemos e devemos articular o que nos cerca para alcançar o que nos motiva? Ou trapaceiros trapaceados, criando em cima de conceitos da arte, da comunicação e da linguagem? Existe Design? E se existe, o que o design pode fazer?

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“É como se pudéssemos escolher entre dois aspectos de um mesmo fato, optando sempre pelo lado mais conveniente. E aqui reside a natureza trágica da religião do design: embora adquira uma aparência mais dócil, aquilo que vemos não deixa de existir. A cegueira não é porque não conseguimos ver, mas porque fingimos que não vemos. A ironia é que, ao trapacear a desgraça humana, o design somente reforça uma sensação de que estamos sendo enganados. Desse modo, o próprio design fundamenta a possibilidade de sua existência – e é por isso que, aliás, não faz sentido algum haver hereges que são contra o design. O Velho Testamento do design é contundente: quanto mais trapaceamos o mundo, mais somos trapaceados pelo design.” (BECCARI, p. 36)

A pluralidade que se faz tão presente nos nossos dias parece ser um pré-requisito quando pensamos no que é intrínseco à atuação do design. A necessidade de uma compreensão tão abrangente, pode parecer por vezes um convite a nos perdermos em nossas próprias ideias. Como e onde o designer encontra subsídios para suas criações? Como pensar sua função e como determinar a maneira com que ele atua em tantos lugares? Se o design é hoje cada vez mais plural, como expressar suas ações entre o físico e o digital, o atual e o virtual. Da tinta ao pixel, do gráfico ao produto, desde quando o design de fato se faz presente entre nós, como ele muda nossas vidas e até onde ele interfere no que fazemos, como fazemos e qual é a sua influência no que essencialmente somos?

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“Quando penso no fato de existirem tantas coisas com a palavra design ao meu redor, não consigo aceitar tal cenário como evidência de sua existência. Afinal, seria muita ingenuidade nossa acreditar que se crescerem ainda mais o número de igrejas e templos, os ateus deixariam de existir. A comparação pode parecer forçada, mas acreditamos ser plausível aceitar o impasse de que todas as indagações aqui levantadas, no fim, são tentativas desesperadas de afirmação por um motivo de ser e estar no mundo. Somente o crente dogmático tem coragem de dizer que sua religião é melhor que a do outro. Neste ponto, acabo sendo filho do ceticismo. Como diria Oscar Wilde, com a devida licença poética, já não sou mais jovem o suficiente para saber de tudo. O tal do sentimento trágico de não sabermos por que aqui estamos e pra onde iremos, me devora e tortura. Inventamos essas histórias, família, religião, profissão, mercado, design, a própria História, para aguentarmos. Não vivemos. Sobrevivemos. Ainda assim, apesar de todas as dúvidas levantadas e a intencional falta de resposta, distorço um conhecido ditado popular para estabelecer minha posição definitiva: não acredito no design. Mas que existe, existe.” (MIZANZUK, p. 22)

Deste episódio: Edição, roteiro e sound design por Rodolfo Quinafelex. Trilha sonora por Felipe Ayres.

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Modernidade Líquida

Refrações é um experimento que promove o encontro de questionamentos e interpretações com base na visão de pensadores em obras pontuais, traduzidos em curtos episódios. Como pensar o mundo e outras questões relacionadas ao nosso tempo? Neste episódio: где конец радуги Zygmunt Bauman – Modernidade Líquida. Traduzido por Plínio Dentzien. Rio de Janeiro: Editora Zahar, 2000.

“Os espetáculos tomam o lugar da supervisão sem perder o poder disciplinador do antecessor. A obediência aos padrões tende a ser alcançada hoje em dia pela tentação e pela sedução e não mais pela coerção – e aparece sob o disfarce do livre-arbítrio, em vez de revelar-se como força externa”. (p. 101)

“Muitos, talvez a maioria, são nômades sem abandonar suas cavernas. Podem ainda buscar refúgio em seus lares, mas dificilmente acharão lá o isolamento, e por mais que tentem nunca estarão verdadeiramente em casa: os refúgios tem paredes porosas, onde se espalham fios sem conta e que são facilmente penetradas por ondas aéreas. Essas pessoas são, como a maioria antes delas, dominadas e “remotamente controladas”; mas são dominadas e controladas de uma maneira nova. A liderança foi substituída pelo espetáculo: ai daqueles que ousem lhes negar entrada. Acesso à “informação” (em sua maioria eletrônica) se tornou o direito humano mais zelosamente defendido e o aumento do bem-estar da população como um todo é hoje medido, entre outras coisas, pelo número de domicílios equipados com (invadidos por?) aparelhos de televisão. E aquilo sobre o que a informação mais informa é a fluidez do mundo habitado e a flexibilidade dos habitantes”. (p. 177)

Esqueça o Big Brother e o modelo do panóptico. Seriamos hoje vigias de nós mesmos? Escolhemos ser escravos ao optarmos pela massificação da informação e por expor nossas vidas a níveis que nunca pensamos? Ninguém nos obriga a compartilhar nada, e mesmo assim, cada vez mais pessoas sentem a necessidade de compartilhar qual foi a comida, o restaurante, o filme, o sentimento. Se estabeleceu nas redes sociais mais do que a beleza e praticidade da comunicação segmentada por gostos e relevância. Por trás do perfil, pessoas se perdem em meio a diálogos digitais, que mudaram a maneira como construímos ideias, registrando textos rasos que podem para sempre invalidar nossos argumentos. A rede social não permite erros, mas os erros sempre acontecem.

“Não há mais “o Grande Irmão à espreita”: sua tarefa agora é observar as fileiras crescentes de Grandes Irmãos e Grandes Irmãs e observá-las atenta e avidamente, na esperança de encontrar algo de útil para você mesmo: um exemplo a imitar ou uma palavra de conselho sobre como lidar com seus problemas, que, como os deles, devem ser enfrentados individualmente, e só podem ser enfrentados dessa forma. Não há mais grandes líderes para lhe dizer o que fazer e para aliviá-lo da responsabilidade pela consequência de seus atos; no mundo dos indivíduos há apenas outros indivíduos, assumindo toda a responsabilidade pelas consequências de ter investido a confiança nesse e não em qualquer outro exemplo”. (p. 39)

Seria esse momento em que vivemos uma transição, ou de fato um novo modelo de como viver? Se passamos de uma fase sólida para a líquida, qual será o limite e como podemos controlar a vazão pela qual nosso tempo escapa? Esse tempo que se tornou cada vez mais precioso. Na Modernidade Líquida de Bauman, fica a sensação a todo momento que tudo se dissipa e que o curto prazo é a única constante. Em suas próprias palavras, “A “escolha racional” na era da instantaneidade significa “buscar a gratificação evitando as consequências”, e particularmente as responsabilidades que essas consequências podem implicar. Traços duráveis da gratificação de hoje hipotecam as chances das gratificações de amanhã. A duração deixa de ser um recurso para tornar-se um risco”.

“É difícil conceber uma cultura indiferente à eternidade e que evita a durabilidade. Também é difícil conceber a moralidade indiferente às consequências das ações humanas e que evita a responsabilidade pelos efeitos que essas ações podem ter sobre outros. O advento da instantaneidade conduz a cultura e a ética humanas a um território não-mapeado e inexplorado, onde a maioria dos hábitos aprendidos para lidar com os afazeres da vida perdeu sua utilidade e sentido. Na famosa frase de Guy Debord, “os homens se parecem mais com seus tempos que com seus pais”. E os homens e mulheres do presente se distinguem de seus pais vivendo num presente “que quer esquecer o passado e não parece acreditar mais no futuro”. Mas a memória do passado e a a confiança no futuro foram até aqui os dois pilares em que se apoiavam as pontes culturais e morais entre a transitoriedade e a durabilidade, a mortalidade humana e a imortalidade das realizações humanas, e também entre assumir a responsabilidade e viver o momento”. (p. 149)

Quanto tempo? E nesse tempo, estaríamos apenas sentindo como ele escapa por nossos dedos, simplesmente pela velocidade como tudo passa? Independente do estado em que vivemos, e de como o curto prazo se faz mais presente do que o longo prazo, seria tudo isso apenas uma percepção nostálgica de que mudamos e de que não voltaremos a ser como fomos? Seria difícil aceitar que o tempo passou, e que com isso, temos que lidar com o espaço vazio deixado pela morte daqueles que amamos, dos sonhos que não se realizaram, e dos planos que nunca saíram do papel? Seria a nostalgia uma visão que coloca o passado como o tempo ideal apenas porque antes era mais fácil sonhar?

“O encontro de estranhos é um evento sem passado e frequentemente também sem futuro. Uma história “para não ser continuada”. Uma oportunidade única a ser consumada enquanto dure e no ato, sem adiamento e sem deixar questões inacabadas para outra ocasião”. (p. 111)

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O mundo codificado

Refrações um experimento que promove o encontro de questionamentos e interpretações, com base na visão de pensadores em obras pontuais, traduzidas em curtos episódios. Como pensar o mundo e outras questões relacionadas ao nosso tempo? Neste episódio:  Vilém Flusser – O Mundo Codificado. Organizado por Rafael Cardoso e traduzido por Raquel Abi-Sâmara. São Paulo: Cosac Naify, 2007.

“A comunicação humana é um artifício, cuja intenção é nos fazer esquecer a brutal falta de sentido de uma vida condenada a morte. Sob a perspectiva da natureza, o homem é um animal solitário, que sabe que vai morrer, e que na hora de sua morte está sozinho. E potencialmente, cada hora é a hora da morte. Sem dúvida, não é possível viver com esse conhecimento da solidão fundamental e sem sentido. A comunicação humana tece o véu do mundo codificado. O véu da arte, da ciência, da filosofia e da religião ao redor de nós. E o tece com pontos cada vez mais apertados. Para que esqueçamos nossa própria solidão, nossa morte, e também a morte daqueles que amamos. O homem comunica-se com os outros. É um animal político. Não pelo fato de ser um animal social. Mas sim, porque é um animal solitário incapaz de viver na solidão.” (p. 91)

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“Os objetos deixaram de ser alcançáveis e, por isso, no sentido estrito da palavra, não são mais “objetivos”, mas apenas “fenomênicos”; eles agora somente aparecem, passam a ser visíveis apenas. Por isso é desconfortável esse ponto de vista, porque nos faz duvidar da objetividade desse mundo que apenas aparece e não mais se manifesta. No entanto, ele oferece uma vantagem: agora que não esbarramos mais nas coisas, podemos observá-las, vê-las em seu contexto; podemos deduzir fatos. Agora que não esbarramos mais numa árvore após a outra, podemos ver a floresta.”  (p. 163)

Como vemos o mundo? A todo momentos estamos prestando atenção a superfícies eletrônicas. Utilizamos dispositivos que tem sempre na tela, alguma coisa a nos mostrar. Dividimos nossa atenção entre notificações, mensagens de texto, voz e imagens. Seja no smartphone, no tablet, na televisão, no monitor. A superfície eletrônica está lá, sempre pronta para nos abrir as portas para um mundo repleto de informações, exatamente da maneira que queremos, ou achamos que queremos enxergar. Mas quais as limitações que essas superfícies nos implicam ao acessar esse mundo codificado?

“O computador é uma calculadora provida de memória. Nessa memória podem ser inseridos os cálculos, caso tenham sido passados do código numérico para o código digital, ou seja, caso esses cálculos tenham sido buscados no código alfanumérico. Agora, senta-se diante de um teclado, busca-se na memória a partir de cada toque, um elemento pontual após o outro, a fim de integrar uma imagem na tela, de computá-la. Essa busca feita passo a passo pode ser automatizada e acontecer muito rapidamente. As imagens aparecerão na tela numa velocidade estonteante, uma após a outra. Pode-se observar essa sequência de imagens como se a imaginação tivesse autonomizado, como se tivesse se deslocado de dentro, digamos, da cabeça, para fora, para o computador. Como se pudéssemos ver nossos próprios sonhos do lado de fora. (…) Desse modo, as imagens fixadas podem ser alteradas, pode-se iniciar uma espécie de diálogo entre a própria imaginação e aquela que foi introduzida no computador. (p. 173)

glitchO que vivemos e sentimos quando nos sentamos diante do mar? Quais os sentimentos que essa cena nos provoca? Do que nos lembramos, no que pensamos e como registramos essa mistura de sensações? Como o ato de registrar esse momento em uma fotografia, codifica esse momento? E quando a fotografia é digital, como se dá a interpretação de digitos e números em uma imagem que pode ser imediatamente tratada e corrigida dentro de padrões programados? Para Flusser, “Primeiramente recuamos do mundo para poder imaginá-lo. Então nos afastamos da imaginação para poder descrevê-lo. Depois nos afastamos da crítica escrita e linear para poder analisá-lo. E, finalmente, projetamos imagens sintetizadas a partir da análise, graças a uma nova imaginação.” Como refletimos a nossa imaginação entre o suposto real e o virtual? Existe uma diferença? E mais do que isso, se ela existe, ela importa?

“As imagens da imaginação até hoje são bidimensionais porque foram abstraídas do mundo quadridimensional, e as imagens da nova imaginação são bidimensionais porque foram projetadas por cálculos adimensionais (nulldimensional). O primeiro tipo de imagens fez mediação entre o homem e seu mundo. O segundo tipo, entre cálculos e sua possível aplicação no entorno. O primeiro significa o mundo, o segundo, cálculos. O primeiro é cópia de fatos, de circunstâncias. O segundo de cálculos. Os vetores significativos das duas imaginações indicam direções opostas, e as imagens do primeiro tipo devem significar coisas diversas do segundo” (p. 173)

imaginacaoEstaríamos vivendo de fato em um mundo codificado? Será que podemos resumir nossa existência no mundo digital em que estamos cada vez mais presentes, entre programadores e programados? Entre pessoas que através de uma linguagem, criam uma nova codificação, mais simples. E em cima dessa codificação, supostos usuários fazem escolhas dentro de combinações que ao mesmo tempo que facilitam caminhos, limitam opções? Em contraponto, não seria essa uma visão amedrontada de como mudamos nossa maneira de nos comunicar e enxergar o mundo? Como entender o código, a codificação e o que existe além dessa interpretação? Como lidar com a linguagem além da linguagem e qual é o papel das diferentes dimensões entre os nossos olhares e sensações?

Não temos escolha: devemos ousar. Independente de querermos ou não, a nova imaginação promete-nos vivências de representações, sentimentos, conceitos, valores e decisões – coisas que até agora só pudemos sonhar, no melhor dos casos; essa ousadia promete colocar em cena as capacidades que até agora apenas dormitavam em nós. (p. 177)

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Hiper-realidade, simulação e simulacro

Como pensar o mundo e outras questões relacionadas ao nosso tempo? Refrações é um experimento que promove o encontro de questionamentos e interpretações com base na visão de grandes autores em curtos episódios. Nesta edição: Simulacros e Simulação (S&S), de Jean Baudrillard (edição consultada: Trad. Maria João da Costa Pereira. Lisboa: Relógio D’água, 1991).

“Quando o real já não é o que era, a nostalgia assume todo o seu sentido. Sobrevalorização dos mitos de origem e dos signos de realidade. De verdade, de objetividade e de autenticidade de segundo plano. Escalado do verdadeiro, do vivido. Ressurreição do figurativo onde o objeto e a substância desapareceram. Produção desenfreada de real e de referencial paralela e superior ao desenfreamento da produção material. Assim surge a simulação na fase que nos interessa: uma estratégia de real, de neo-real e de hiper-real. Que faz por todo o lado a dobragem de uma estratégia de dissuasão.” (S&S, p. 14).

Como descrever o real? O que seria a realidade? Segundo o dicionário, o significado de realidade é a qualidade do que é real. Existência de fato. O que existe realmente. Um conjunto de todas as coisas reais. Mas como dizer que algo é apenas o que é se partirmos do princípio de cada um de nós tem uma interpretação sobre tudo? Damos valores diferentes para as mesmas coisas, e temos diferentes pontos de vista sobre um mesmo assunto, levando em consideração que tivemos durante toda a vida diferentes perspectivas sobre o que é a vida e como devemos nos comportar diante dela. Poderia ser o que entendemos como realidade hoje, em uma visão hipotética, apenas um plano no qual nos permitimos misturar nossas próprias ficções com as de outras pessoas? Uma dimensão na qual se fundem diferentes maneiras de observar o que nos cerca e que faz parte de nossas experiências, determinando assim um ponto em comum? Não estaria o que nós chamamos de realidade, sofrendo distorções que podem estar criando um novo entendimento do que é real como idealização?

Segundo Baudrillard, “O que toda uma sociedade procura ao continuar a produzir e reproduzir, é ressuscitar o real que lhe escapa. É por isso que está produção material é hoje, ela própria, hiper-real. Ela conserva todas as características do discurso da produção tradicional, mas não é mais que a sua refracção desmultiplicada. Assim, em toda parte o hiper-realismo da simulação traduz-se pela alucinante semelhança do real consigo próprio.”

Você certamente já prestou atenção diversas vezes em fotos de belas mulheres estampadas em propagandas, artigos de revista e portais de Internet. E certamente foram muitas as vezes também que você já ouviu alguma história de deslizes cometidos em retoques e tratamentos de imagens dessas mesmas mulheres, que chegaram ao ponto de distorcer totalmente o que entendemos como o normal na anatomia ou estética humana. Em alguns momentos, presenciamos até mesmo erros gritantes, que chegam a sumir com partes do corpo. Tudo isso, baseado em uma distorção. Um conceito de hiper-realidade . Convencionou-se que a beleza feminina deve atingir um ideal que, se pararmos para pensar, é absurdo. Um ideal de beleza impossível de ser atingido, simplesmente pelo fato de ser uma beleza inexistente, a não ser no imaginário de algumas pessoas.

“As pessoas já não se olham, mas existem institutos para isso. Já não se tocam, mas existe a contactoterapia. Já não andam, mas fazem jogging. Por toda a parte se reciclam as faculdades perdidas, o corpo perdido, a sociabilidade perdida, ou o gosto perdido pela comida. Reinventa-se a penúria, a ascese, a naturalidade selvagem desaparecida.” (S&S, p. 22)

Estaríamos cada vez mais vivendo fenômenos do que é hiper-real? Esse exemplo de simulação de beleza, seria apenas uma prova do que vivemos? A diferença de uma simulação para o simulacro de fato, é que no estágio de simulação, ainda conseguimos perceber que estamos, de alguma forma, sendo enganados, ou de que estamos vivendo de alguma forma, algo que não é supostamente real. Já no simulacro, perdemos por completo essa noção. Adotamos como suposta verdade um conceito que já não temos mais o discernimento de ser uma distorção ou simulação.

O que será que não estamos mais enxergando? O que será que não estamos mais percebendo?

“Em vez de fazer comunicar, esgota-se na encenação da comunicação. Em vez de produzir sentido, esgota-se na encenação do sentido. Gigantesco processo de simulação que é bem nosso conhecido. A entreva não diretiva, a palavra, os telefones de auditores, a participação diversificada, a chantagem a palavra. A informação é cada vez mais invadida por essa especie de conteúdo fantasma, de transplantação homeopática, de sonho acordado da comunicação. Disposição circular onde se encena o desejo da sala, antiteatro da comunicação que, como se sabe, nunca é mais que a reciclagem em negativo da instituição tradicional, o circuito integrado do negativo. Imensas energias são gastas para manter esse simulacro, para evitar a dissimulação brutal que nos confrontaria com a evidente realidade de uma perda radical do sentido” (S&S, p. 105)

Até onde vai a hiper-realidade? Se ela está presente em nossas vidas, em quais níveis ela está atuando? Nos refrigerantes com sabores artificiais que simulam frutas que muitas vezes nunca provamos? Na pornografia que transforma o sexo em mais do que sexo propriamente dito? Nos jardins impecáveis que representam supostamente uma natureza perfeita? Nos filmes e séries que criam mundos de fantasia que só agradam a audiência mais exigente, quando conseguem dar mais sentido as suas obras do que aquilo que entendemos como a realidade de nossas próprias vidas?

Como medir a nossa percepção de realidade? Estaríamos imersos em um processo de comunicação hiper-real quando estamos conectados nas redes sociais? Perdemos o rumo ao procurarmos mostrar nelas uma vida supostamente perfeita, que segue um roteiro de cinema para parecermos aos nossos amigos e familiares aquilo que não somos de fato, personagens de nós mesmos? Será que perdemos, por exemplo, a capacidade de vivenciar a experiência de ver com toda a atenção as obras de um museu, ou de conseguir saborear uma boa comida, em detrimento a necessidade de mostrar que somos felizes através de fotos digitais compartilhadas que clamam por atenção? Quanto tempo estamos passando imersos em supostas realidades virtuais, vivendo histórias prontas, ou com no máximo algumas variáveis dentro de um roteiro mais flexível. Em oposição a isso, vamos considerar que existe na válvula de escape das comunicações virtuais e dos ambientes digitais, simulações e interações de tantos tipo, como por exemplo em jogos e simuladores, que elas podem despertar muitas vezes sentimentos tão fortes que nos parecem tocar o fundo da alma e despertar as emoções mais humanas possíveis. Mesmo que seja em uma simulação ou simulacro, vivenciar essas experiências com tamanha intensidade então, não tornaria o que sentimos, real?

“Não é quando se retira tudo que não resta nada, mas quando as coisas se revertem sem cessar e a própria adição já não faz sentido. O nascimento é residual se não for retomado simbolicamente pela iniciação. A morte é residual se não for resolvida no luto. O valor é residual se não for reabsorvido e volatilizado no ciclo das trocas. A sexualidade é residual quando se torna produção de relações sexuais. O próprio social é residual quando se torna produção de relações sociais. Todo o real é residual, e tudo o que é residual está destinado a repetir-se indefinidamente no espectral.” (S&S, p. 179)